Memórias, crônicas e declarações de amor

No começo, havia o sol.

Um sol grande, teimoso, que atravessava as frestas da casa em Montes Claros e se espalhava pela poeira do chão, pelas paredes quentes, pelo rosto das pessoas. Era o tipo de sol que parecia conhecer todo mundo pelo nome, desses que conversam com as plantas, secam as roupas, bronzeiam os corpos e vigiam as crianças que crescem correndo entre o quintal e a rua.

Montes Claros, uma terra onde um monte pode ser plano e um roxo pode ser verde, era assim: meio contraditória e muito viva. Na boca, o gosto travoso de umbu, no ar, o perfume de arroz com pequi vindo da cozinha. Ao fundo, quase sempre, um rádio ligado ou um vinil na vitrola.

Foi nesse cruzamento onde Minas encontra a Bahia, que a semente de Zerzil começou a germinar, no solo seco, porém muito fértil do sertão nortemineiro.

Cresceu em companhia de muitas mulheres: Ana, a mãe, as avós Mainha e Mãezinha, a madrinha Lúcia, além da irmã, Nanny. O pai existia, mas sob uma distância imposta pela moral e bons costumes: uma figura que orbitava, enquanto o centro afetivo da família se organizava em volta de panelas, risos de cozinha e histórias contadas. Outra figura importante foi Tiohai — tio-padrinho, irmão da mãe, e pai de consideração. Pela mão dele, ao lado do seu amor, a tia Nil, vieram também dois irmanes de coração, Jéssica e Guilherme.

Montes Claros era uma cidade com mais de 400 mil habitantes, mas de alma interiorana. Tinha feira, movimento universitário, uma veia artística forte — teatro, música, gente inventando coisas por todo lado —, mas também carregava a mesma couraça homofóbica, misógina e transfóbica que marcava o Brasil dos anos 90 e 2000. Ser uma criança LGBT ali era andar com uma roupa de festa num campo minado: cada passo podia virar motivo de riso, de piada, de violência.

Desde cedo, Zerzil sentia duas forças em tensão. De um lado, um encantamento profundo pelo mundo: cores, cheiros, canções, histórias. De outro, um medo fundo de nunca encontrar “sua turma”. Às vezes, olhando a rua pela janela, dava vontade de atravessar a cidade inteira a pé só para checar se, em alguma esquina, beco ou viela, existia um lugar onde pudesse ser inteiramente elu.

Entre castelos, sítios e bruxos solitários

Um dia, a TV acendeu e, com ela, um castelo ascendeu. Não era um castelo de príncipes chatos padrões e perfeitos nem de reinados exemplares. Era um castelo estranho, cheio de criaturas impossíveis, magias, experimentos e um menino‑bruxo meio perdido. No primeiro episódio que viu, esse bruxo, sem amigos, tentava aprender a fazer amizades com ajuda de feitiços desajeitados.

Do lado de cá da tela, em Montes Claros, uma outra criança se reconheceu imediatamente. Um bruxo, um castelo, uma solidão, uma estranheza sem nome: o espelho estava posto. Ali nasceu uma das primeiras alianças da vida de Zerzil: a certeza íntima de que a magia podia ser uma forma de sobreviver ao mundo.

Antes mesmo de aprender a ler, os livros já existiam pela voz da mãe e pelos audiolivros que rodavam em casa. Quando, aos sete anos, aprendeu a decifrar as letras, foi como ganhar um novo par de olhos. A ficção virou abrigo e portal. O Sítio do Picapau apareceu como um dos primeiros desses mundos: um Brasil encantado onde crianças discutem com bonecas falantes, viscondes de sabugos e bichos mágicos.

Anos depois, viria também a história de um outro bruxo que vivia debaixo de uma escada e acabava morando num castelo — não o do Rá‑Tim‑Bum. Zerzil leu o primeiro livro dessa saga aos 11 anos e, ao terminar, tomou uma decisão silenciosa: seria escritore. A partir dali, começou a devorar séries de fantasia e, em paralelo, a criar seu próprio universo.

De alguma forma, sempre esteve entre castelos e sítios: entre a TV e os livros, entre histórias brasileiras cheias de cheiro de terra e sagas estrangeiras cheias de feitiços e internatos distantes. O corpo estava no sertão; a cabeça, em muitos mundos ao mesmo tempo.

O violão proibido e as serenatas da madrugada

Na casa de Montes Claros, havia um objeto que brilhava com um tipo de luz diferente: o violão do pai. Não era “coisa de criança”, diziam. Mexer nele parecia quase um sacrilégio. Talvez por isso mesmo o instrumento se tornasse tão hipnótico. Zerzil olhava para aquele violão como quem encara uma porta fechada: com medo e desejo na mesma medida.

Quando começou a estudar música, aos nove anos, no Conservatório Estadual de Música Lorenzo Fernandez (CELF), preferiu não usar o violão do pai. Tocava com o violão de Tiohai, mais simples, mais gasto, mas muito mais acolhedor. Ali havia uma lição sem quadro‑negro: os objetos valem menos que as experiências que nos permitem viver. Um violão humilde, nas mãos certas, abriga mais mundos do que um instrumento fino cercado de proibições.

Com Tiohai vieram também as serenatas. Em noites especiais — Dia das Mães, aniversários, datas que pediam canto —, o grupo de amigos de infância dele, o Maranatá, se reunia. Zerzil, ainda criança, ia junto. De casa em casa, de portão em portão, cantavam Clube da Esquina, clássicos da MPB e serestas regionais para as mães, os amores, as famílias que esperavam do outro lado da grade. A cidade silenciosa era atravessada por vozes, e aquela criança, caminhando entre adultes, aprendia que a música podia ser um feitiço coletivo: um jeito de dizer “eu te vejo” sem precisar explicar mais nada.

Enquanto isso, a adolescência batia às portas com uma promessa estranha. Os interesses da turma da mesma idade pareciam cada vez mais distantes. Em vez disso, Zerzil se aproximava de pessoas mais velhas, de suas prateleiras e de suas coleções de fitas e DVDs (a maioria piratas). Graças a duas pessoas queridas da vizinhança, Jorge Rocha (artista plástico com quem Zerzil aprendeu a pintar o observando) e Rita (grande colecionadora de filmes antigos), desbravou videotecas inteiras: Almodóvar, Tinto Brass, Tarantino, Lars von Trier, Cinema Novo, pornochanchada… Cada filme abria uma brecha, avisando que havia infinitas maneiras de contar uma história — muitas delas mais honestas do que o roteiro engessado da “vida normal”.

Na mesma época, surgiu uma forma muito particular de auto estímulo: criar roteiros profundos de filmes eróticos, quebrando os limites entre a pornografia e o cinema cult, tendo Calígula como inspiração. Sem saber, Zerzil treinava duas coisas que jamais o abandonariam: tecer histórias e misturar desejo com palavra.

O chamado em duas vozes

Na escola, as notas eram altas. Para uma família pobre do sertão, isso soava como senha de abertura de portas. A medicina, via ProUni, apareceu como possibilidade concreta de quebrar uma linhagem inteira de precariedade. A mãe, com o coração dividido entre a alegria de ver elu se realizar nas artes e o medo de que passasse necessidade num país onde arte raramente é valorizada — sobretudo no interior —, fez um acordo silencioso com o destino: convenceu Zerzil de que a medicina poderia ser a base material para que a arte florescesse sem fome.

Zerzil topou. Entrou para o curso de medicina. No primeiro semestre, porém, algo escureceu. A rotina de hospital, o contato direto com doença e morte, a dureza da formação, tudo isso sem o nutriente da arte em dose adequada, empurrou elu para a primeira depressão. Não era falta de vontade de cuidar; era falta de ar.

No semestre seguinte, decidiu ouvir o outro chamado. Tentou e foi aprovado também no curso de canto e passou a estudar música à noite, enquanto a medicina ocupava os dias. Com as duas vidas correndo em paralelo, algo se reequilibrou dentro de si. As notas em medicina melhoraram, a depressão recuou. A arte não era hobby; era necessidade existencial.

Ali, sem discursos acadêmicos, nasceu uma lei íntima: arte e a medicina não eram inimigas. Eram duas essências diferentes do mesmo perfume.

O sopro do Dragão

capa album ZZ 2017

Com o curso de canto concluído, em 2011, uma banda se formou quase naturalmente: Le Cabaret. No repertório, MPB, vanguarda paulistana, indie pop e músicas regionais. No coração, o início da trajetória como compositore. Embora o nome “Era Dragão” só aparecesse depois, foi ali que o dragão começou a acordar: um ser feito de fantasia, eletricidade, humor e liberdade.

Em 2013, formade em medicina, Zerzil fez o movimento que carregava desde criança como uma espécie de profecia interna: deixou Montes Claros. Aos 25 anos, mudou‑se para o Rio de Janeiro. A cidade recebia, como tantas vezes fez, mais uma criatura exilada do sertão, com um matulão de poucas roupas, uns poucos acordes no bolso e um fogo de vontade ardendo no peito.

No Rio, entre plantões, aulas, shows e descobertas, gravou o primeiro álbum, ZZ. Ali estavam condensadas paixões da época: pop‑eletrônico, referências geeks, humor, liberdade sexual. Era Dragão: um universo em que a fantasia nerd, a sexualidade dissidente e a música se misturavam sem pedir permissão.

Foi também no Rio que Zerzil viveu suas primeiras experiências afetivas e sexuais em plena liberdade. Morou sozinhe, morou junto, conquistou independência e se jogou numa cena artística que parecia feita sob medida para quem carrega mais perguntas do que respostas. O apartamento minúsculo em Copacabana virou ponto de encontro: saraus semanais, mais de vinte pessoas espremidas entre almofadas, sofá e cama, revezando‑se para cantar canções autorais.

O lugar ficou tão emblemático que o jornal O Globo o apelidou de “novo apartamento de Nara Leão”, em referência ao endereço histórico em que nasceu a Bossa Nova. Entre copos, violões e gargalhadas, formaram‑se laços e parcerias com artistas que atravessariam a vida de Zerzil: Duda Brack, Elisa Fernandes, Suely Mesquita, Ana Sucha, Matheus Prevot, Natália Boere, Tuca Oliveira, Victor Cupertino, entre muites outres.

Nesse período, foi gravade pela primeira vez como compositore e integrou o coletivo Cavalo Preto, de artistas cantautores. Em 2016, lançou o primeiro single solo, “Yo fico mucho loko”, uma ode bem‑humorada ao ménage à trois, rindo da moral estreita e celebrando corpos, desejos e arranjos fora da norma.

Em 2017, o álbum ZZ veio ao mundo e acompanhou Zerzil até 2019, consolidando a Era Dragão como capítulo inteiro: pop, eletrônico, fetiches geeks, ironia, liberdade afetiva, sexual e de gênero. Ali já estava cristalizada a ideia do mundo como sorveteria infinita.

Em “Sorveteria”, uma das canções do disco, Zerzil canta a vida como vitrine de sabores, misturas, combinações. O problema não é a falta de opções, mas o medo e o costume que prendem as pessoas ao mesmo sabor de sempre. “Tanto sabor nessa sorveteria… por que que eu vou ficar só no creme de baunilha?”

Quadball, bruxaria e uma grande paixão

Durante a turnê de ZZ, um convite peculiar apareceu: um show numa escola de bruxaria em Campos do Jordão, a Escola de Magia e Bruxaria do Brasil (EMB). Era como se, anos depois, o portal do castelo da infância ganhasse uma versão para adultes: capas, varinhas, rituais, salões comunais — fantasia assumida em carne e osso.

Entre esses corredores, além das canções, uma história começou a se desenhar: Zerzil viveu, ali, uma grande paixão. Em 2019, decidiu mudar‑se para São Paulo para encarar esse amor de frente. Na nova cidade, outro elemento improvável entrou em cena: o quadball. Zerzil entrou para um time recém‑criado, os Dragões da Romênia, que depois se tornariam os Dragões da Tormenta.

Jogando como goleire, viveu uma espécie de saga esportiva acelerada: campeão brasileiro, campeão paulista, campeão sul‑americano. Uma carreira esportiva tão intensa quanto breve, encerrada com chave de ouro — como se o dragão da primeira era tivesse decidido, por um instante, atravessar também os campos de jogo.

Até aqui, ainda respirava o fogo da Era Dragão. Mas, como toda boa história de fantasia sabe, grandes paixões costumam abrir caminho para grandes transformações.

Coração partido, sertão e o nascimento do Queernejo

capa album queernejo 2023

O amor que motivara a mudança para São Paulo foi sufocado pela claustrofobia do armário. A pessoa amada não conseguia, ainda, viver aquele afeto à luz do dia, e a relação desfez‑se pouco depois da mudança. Para alguém que sempre sentiu uma inclinação profunda à liberdade afetiva e à não‑monogamia — mesmo antes de conhecer esses nomes —, mergulhar de repente nos clichês do amor romântico clássico e ser recusade foi um terremoto. Vieram dor, luto e confusão.

Foi justamente nessa fase que a música sertaneja, velha conhecida de infância, voltou com outro rosto. Crescide no sertão, Zerzil nutria uma aversão consciente ao gênero — não pelo som em si, mas pelas letras e pelos ambientes frequentemente atrelados a comportamentos homofóbicos, transfóbicos e misóginos. O sertanejo sempre foi a trilha sonora de um mundo do qual queria se afastar.

Mas, em São Paulo, sofrendo por amor, aquelas letras exageradas começaram a fazer um sentido incômodo. A dor encontrava ressonância ali. Por ironia do destino, Zerzil voltara a escutar o gênero por influência desse amor, pois o sertanejo era o gênero favorito daquele amor paulistano. De tanto ouvir, algo se deslocou por dentro. Quando se sentava para compor, as melodias e harmonias que vinham eram sertanejas. Foi como se o sertão, que nunca deixou de morar dentro delu, tivesse encontrado uma nova forma de se manifestar.

Nascia, ainda sem batismo oficial, a Era Queerneja.

Em 2019, Zerzil começou a lançar essas composições sertanejas no YouTube, de forma caseira. Em 2020, veio “Garanhão do Vale”, sua versão sertaneja queer de “Old Town Road”, de Lil Nas X: chapéu, cavalo, desejo e deboche ocupando um espaço historicamente reservado à masculinidade tóxica. A música chamou atenção e rendeu um convite de Gabeu e Gali Galó para participar do FivelaFEST, o primeiro festival de sertanejo queer.

A pandemia de COVID‑19 adiou o encontro, que acabou acontecendo em formato virtual, com gravações ao vivo em estúdio. Dessa experiência nasceu o álbum Queernejo, o primeiro de Zerzil gravado ao vivo. Não havia, no início, um plano de “álbum conceitual”, mas no subtexto ele narra a história daquele amor — do encantamento à ruptura.

No centro dessa fase está o Garanhão do Vale, persona “safofa” — safada e fofa ao mesmo tempo —, que se joga em encontros, se apaixona, sofre, cai, levanta, ri e chora em voz alta. Um corpo queer, sensível e escancarado dentro do universo sertanejo.

Cinema, terapia e novos nomes para coisas antigas

Trancade em casa durante a pandemia, como quase todo mundo (só saía para fazer plantões, já que trabalhou na linha de frente do combate ao COVID), Zerzil decidiu atender a outro chamado antigo: o do cinema. Entrou para a Academia Internacional de Cinema (AIC), em São Paulo, para estudar com mais método aquilo que já experimentava intuitivamente desde a adolescência: narrar em imagens.

Para praticar, passou a dirigir e produzir os próprios clipes. A Era Queerneja tornou‑se, assim, sua fase mais rica em videoclipes conceituais, cada um funcionando como capítulo de uma narrativa maior, principalmente a saga do Garanhão do Vale.

Em paralelo, avançou na medicina, especializando‑se em saúde mental e hipnose clínica. Essa formação não ficou apenas nos livros: serviu como empurrão para, pela primeira vez, ir para a terapia como paciente. Ali, em sessão, foi se reconhecendo com mais nitidez: pessoa não monogâmica, não binária e bruxa — no sentido de quem manipula símbolos, rituais, intenções, energias para transformar a própria vida e a realidade em volta.

Experiências espirituais com psilocibina aprofundaram a relação com o sagrado e com a magia que já praticava desde criança, misturando referências brasileiras e estrangeiras de forma instintiva. Foi também nessa época que um nome apareceu para aquilo que fazia intuitivamente há anos: Magia do Caos.

“Muita gente acha que eu me descobri não‑mono, não‑binárie e bruxa do caos há pouco tempo; mas, na verdade, eu só descobri recentemente como nomear o que eu já vivia desde criança.”

Em 2023, com a pandemia arrefecida e uma verdadeira revolução silenciosa na própria saúde mental, Zerzil lançou oficialmente o álbum Queernejo, marcando o fim dessa era. Para fechar o ciclo, precisou sacrificar um personagem: no clipe de “Cê tá de brincadeira, né?”, o Garanhão do Vale é assassinado. Fica, na filmografia, um mistério aberto: quem matou o Garanhão do Vale?

TRANSversão e a Bruxa Zé

Após esse rito de passagem, veio a vontade de atravessar a própria obra por outros espelhos. A reconexão com a Magia do Caos e o entendimento mais claro de quem é no mundo impulsionaram uma metamorfose estética e sonora que Zerzil chamou de TRANSversão.

Em vez de simplesmente mudar de estilo, decidiu transversar: atravessar fronteiras de gênero musical, de linguagem, de imagem. Começou a lançar novas versões de músicas amadas desde a infância e da própria discografia, mergulhando em experimentações de sonoridades que sempre o encantaram, como o rock, o pop oitentista e a MPB.

“Unholy”, de Sam Smith, virou “Pecado”; “Padam Padam”, de Kylie Minogue, transformou‑se em “Padrão Padrão”, uma crítica dançante à tirania das normas; “Sampa”, de Caetano Veloso, renasceu como “Pink Sampa”, colorindo a cidade com outra paleta afetiva; canções autorais também entraram no caldeirão: “Bigode Grosso” tornou‑se “Senhora Bigode”; “Metralhando Beijo” virou “Beijo no seu corpo”. As mesmas histórias, mas com outras luzes, ângulos e feitiços.

É nesse período que se manifesta com força a persona Bruxa Zé — uma figura que concentra bruxaria, humor, sensualidade, caos criativo, sertão, cidade, cultura pop e desobediência. A Bruxa Zé é avatar e arauta da Era do Kaos, apontando para um futuro em que nada precisa caber em uma caixinha só.

O marco de nascimento público dessa personagem é o EP Halloween Sessions Vol. 1 – Beijo da Bruxa, de 2025. Nele, cada faixa é um feitiço, cada beijo um encantamento, cada imagem convida a atravessar o espelho.

CAPA EP Halloween Sessions val1 - Beijo da Bruxa

Medicina integrativa e o polimatismo descolonizante

Todo esse caminho artístico corre, desde o início, ao lado da medicina. Com mais de 11 anos de prática, Zerzil atua como clínico geral em emergência e em medicina integrativa em consultório, unindo o olhar clínico à compreensão de mente, corpo e espírito como uma coisa só. Mas não vê essa multiplicidade de áreas como dispersão, e sim como continuidade.

Seu polimatismo — médico, multiartista, bruxa, cineasta, escritore, artista plástique — é encarado como gesto descolonizante. Em muitas culturas originárias, uma mesma pessoa podia pintar corpos, plantar, caçar, cuidar de doentes, contar histórias, fazer música…. A ideia de que cada pessoa deve saber apenas “uma coisa” e fazer dela seu único ofício é um fenômeno intensificado pela colonização europeia e pela lógica mercantil.

Assumir muitas habilidades, portanto, não é falta de foco, como os colonizadores tentam nos convencer; mas sim um ato de reconexão com as nossas origens. É lembrar que um corpo pode abrigar múltiplas funções sem se quebrar. Zerzil gosta de pensar que cada uma dessas áreas é um caminho que leva ao mesmo lugar: a liberdade de ser.

O amor renascido numa rede de afetos

Embora sempre tivesse se identificado com ideias não-monogâmicas, durante a pandemia Zerzil tentou ter um relacionamento monogâmico, no qual elu não conseguiu permanecer por mais de um mês. A sensação de privação de liberdade e a ideia de hierarquizar o amor, colocando uma pessoa sobre todas as outras que amava, levaram essa experiência caosísta ao fracasso. Essa forma de pensamento simplesmente não fazia sentido para elu.

Viveu experiências transicionais monogâmicas após isso, como trisal e relacionamentos abertos… Mas tudo isso levou à conclusão de que a monogamia realmente não fazia sentido na sua forma de existir no mundo.

Foi nesse momento em que tudo fez sentido e o universo conspirou para que se reconectasse com aquele amor do passado, responsável pela Era Queerneja, agora já fora do armário. Os dois corações traziam cicatrizes, sequelas monogâmicas, mas juntes começaram a construir uma nova forma de ver e viver o mundo. Construindo uma rede de afetos não monogâmica que não para de crescer.

Sítio do Picapau Arco‑Íris

Lá atrás, entre castelos e sítios, Zerzil fez uma promessa a si mesme: um dia criaria seus próprios mundos. Essa promessa começou a ganhar forma em 2025, com o lançamento do primeiro livro da trilogia Sítio do Picapau Arco‑Íris.

Nessa reimaginação, personagens clássicos da literatura brasileira são revisitades sob uma lente não monogâmica, antirracista, antitransfóbica. É um Sítio em que a diversidade não é exceção nem adereço; é estrutura. A criança que encontrou abrigo entre castelos e Sítios cresceu e devolveu o gesto: construiu um universo para que outras pessoas dissidentes — de gênero, de desejo, de pensamento — pudessem se ver e se sentir em casa.

1988, cinema musical e novos portais

Hoje, o feitiço segue se ampliando. Zerzil trabalha em um novo álbum, 1988, inspirado nos sons dos anos 80 e produzido por Duda Raupp, vencedor do Grammy. O disco vem sendo gravado desde 2023 e não virá sozinho: será a espinha dorsal de um longa‑metragem musical, o primeiro de Zerzil, em que as faixas de 1988 costuram uma narrativa cinematográfica. A previsão de lançamento desse portal é 2027.

Enquanto esse grande ritual é preparado, outros projetos se abrem. Em 2025, além do EP da Bruxa, estreou também o show A feminina voz do cantor, ao lado de amores de sua rede de afetos não monogâmica, interpretando canções de Ney Matogrosso e Milton Nascimento — duas forças fundadoras na sua formação artística e afetiva.

No palco, algo se alinha de forma quase sobrenatural. É como se todas as vozes que formaram Zerzil — dos amores, das serestas, dos filmes, dos livros, da magia — cantassem ao mesmo tempo. É o lugar onde a estranheza não precisa de tradução.

MTG VeloZZo e ancestrais vivos

No presente, Zerzil se lança também em seu primeiro grande projeto como intérprete: MTG VeloZZo, homenagem à obra de Maria Bethânia e Caetano Veloso, suas maiores referências como intérprete e compositor, respectivamente.

Aqui, o repertório bebe nessas fontes, mas atravessa outra encruzilhada: o funk MTG, com beats produzidos por Lucas Lima. É como se Bethânia e Caetano atravessassem um baile de outra dimensão, sem perder poesia, densidade e risco. Ensaios já ganharam o mundo pelas redes sociais, e a estreia do projeto está prevista para abril de 2026.

Nomes, assinaturas e destinos

O nome artístico é o próprio nome: Zerzil. Na infância e adolescência, isso foi motivo de chacota. Além de ser a criança afeminada, estranha, ainda tinha um nome “esquisito”. Riam, repetiam, torciam a boca. Transformar “Zerzil” em estandarte foi um tipo de alquimia.

Em certos territórios, principalmente na literatura, assina como Zerzil Le Reis, incorporando o sobrenome da mãe como gesto de reconhecimento e continuidade. Cada assinatura é um feitiço de pertencimento.

Uma pessoa artista, médica, bruxa, multiartista do sertão radicade em São Paulo, criatura não binária, não-monogâmica e pansexual, Zerzil prefere se definir com uma frase simples:

“Eu sou o encontro de todas as vozes que me formam. Cada música, cada livro, cada filme, cada rito é uma forma diferente de deixar essas vozes falarem.”

Este site é apenas um mapa parcial desse território. Você pode entrar pelos portais da música, do cinema, da literatura e nos outros que ainda vão surgir. Em qualquer um deles, se chegar com curiosidade e respeito, a Bruxa Zé acende uma vela, o dragão abre um olho lá do fundo da caverna, ecos do Garanhão do Vale riem de longe, e uma nova história começa a ser escrita — dessa vez com você.

Rolar para cima